OMVC - Organização Multidisciplinar de Capacitação e Voluntariado

O fortalecimento dos vínculos familiares e a proteção da criança

O Dignitá é um programa desenvolvido pela OMCV que visa fortalecer os vínculos afetivos e conscientizar os responsáveis pela criança quanto aos seus deveres e obrigações para que ela cresça em um ambiente seguro e protegida. Abaixo segue uma entrevista com nossa assistente social Miriam da Silva, onde abordamos a importância do programa e algumas conquistas em sua trajetória na proteção da infância:

Miriam, qual a importância do programa Dignitá para a proteção da criança e adolescente?

O tema cuidados, proteção e promoção dos direitos da criança e adolescentes são assuntos que parecem ser comuns, mas nos lugares vulneráveis são banalizados e muitas vezes desconhecidos ou ignorados, por isso a importância do trabalho do Dignitá.

Procuramos trabalhar o máximo com toda família sobre o assunto e conscientizar os envolvidos com a criança quanto ao papel intransferível da família, livres da terceirização da educação e cuidados na infância.

Quais são os critérios que determinam essa intervenção?

O que determina as ações do Dignitá em primeiro momento é ver a pessoa humana e agir de forma que a família se sinta acolhida, amparada e também consiga superar dificuldades através dos potenciais que dispõem. Quando não expõem os potenciais, aí sim tomamos medidas cabíveis que não são fórmulas.

Como é feita essa intervenção?

O trabalho é promovido nos projetos atendidos pela OMCV e ocorre quando as famílias não conseguem, por diversos motivos, serem protagonistas de suas histórias. Neste momento o Dignitá assume um diálogo com toda rede local a fim de atender as demandas ou facilitar o processo através de encaminhamentos, mediação e orientação com a perspectiva de promover ações de proteção social sem legitimar a tutela do Estado.

Do ponto de vista teórico metodológico e ético, requer uma dimensão técnica operativa em que o olhar a criança nos remete para além do indivíduo, apontando para as relações sociais que o circunda. Quando se trata da família, sua gestora, isso se dá através de entrevistas, escutas, visitas domiciliares e institucionais, também buscamos compreender as relações familiares e comunitárias. Numa demanda complexa conduzimos o caso para a justiça a fim de encontrarmos uma resposta mais efetiva.

Os pais são receptivos ao programa?

Muitas famílias no primeiro encontro compreendem nossa proposta de assegurar e garantir os direitos das crianças, elas entendem que a atuação na prevenção e promoção dos infantes e uma forma de protegê-los das drogas, abusos, violências, tráfico humano, dentre outras coisas. Mas é preciso frisar que quanto maiores as complexidades e violações, menor será a aceitação.

Porque a intervenção junto à família pode favorecer o progresso da criança e/ou adolescente?

As famílias estão inseridas em grupos socialmente vulneráveis, pauperizados e estruturalmente desorganizadas. Nosso trabalho pode favorecer na articulação entre bens e serviços públicos para promover e assegurar os direitos sociais e individuais da família. Nisto a criança é beneficiária direta de qualquer direito violado superado pelo grupo familiar.

Qual o tipo de violência “mais comum” que você tem lidado no dia a dia dos projetos?

Violência comunitária, doméstica, verbais e nas relações sociais, agressões, bulling, coação e ameaças.

 O que o projeto Dignitá acrescenta em sua trajetória como assistente social?

Experiência é a palavra chave, aprendo todos os dias, de alguma maneira, que num trabalho coletivo as singularidades devem ser respeitadas.

Poderia nos contar alguns casos atendidos pelo programa?

Uma criança atendida pelo Centro Cristão Evangélico Educacional, projeto conveniado a OMCV, sofre um tipo de transtorno mental e não pode ficar sem medicações, a mãe trabalha o dia todo, todos os dias. O filho se trata no sistema público de saúde e devido às tarefas diárias da genitora perdeu a consulta. O problema piorou, pois a nova data marcada pelo posto de saúde estava longe, a medicação acabou e a criança praticamente surtou.

A família, que já estava sendo acompanhada pelo Dignitá, nos procurou pedindo socorro. Articulamos a saúde e apresentamos as vulnerabilidades presentes no caso, também intensificamos as conversas com a genitora a fim de esclarecer e conscientizar sobre a necessidade dela estar presente na vida do filho. Agimos conforme a urgência do caso, primeiro buscamos assegurar a medicação da criança, e conseguimos, depois atuamos junto à família.

Ainda acompanhamos a família, mas hoje ela compreende não só a necessidade de acompanhar a criança, mas também de promover o bem estar dela.

Outra história interessante é da família de uma criança assistida pelo projeto Casa de José, também conveniado a OMCV. Identificamos que o garoto ficava sob a responsabilidade da vizinha, ela cuidava de todos os detalhes da vida dele. Não há nenhum mal nisso, o problema é que a criança estava perdendo os vínculos com os pais, uma vez que ela sai de casa às 6h da manhã para a casa da vizinha que a leva para escola e depois direto para o projeto.

A mãe do garoto solicitou uma visita do Dignitá, mas o motivo era outro, ela não suportava mais conviver com os problemas de alcoolismo do marido.

Fomos bem recebidos por ela e pelo pai, que até então desconhecia os motivos da visita. Abordar o assunto sem conhecer a pessoa foi complicado, mas falamos sobre o fortalecimento dos vínculos afetivos, responsabilidade dos pais, alcoolismo e suas mazelas, sobre as diversas formas de desrespeito e abuso ao infante e de como superar as dificuldades nas relações.

Os resultados foram muito positivos, a vizinha nos contou que os pais da criança estavam muito felizes com a visita da Assistente social, afirmando que aprenderam muito através do Dignitá, o genitor adiantou que vai lutar para abandonar o álcool, pois quer ser o pai que o filho dele espera.